Individual Brasão dos Cabrais

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Entoando as canções do tempo em melancólicas avênas, acompanhando os rebanhos no badalar continuo dos seus chocalhos, os pastores das faldas da Serra da Estrela evavam vida descuidada, mas a vida áspera das serranias. No seu viver quase primitivo, um, de entre todos, ouviu em sonhos, três noites seguidas: — «Vai a Belém e lá encontrarás o teu bem». Acostumado a ver todos os dias aos primeiros alvores do sol, os altos píncaros da Serra, ele que ali nascera e se criara ouvindo a seus avós narrações referentes a grandes lutas que ali se desenrolaram entre os lusitanos, de que descendia, e grandes exércitos de Roma, não se decidiu a partir. Passaram dias! A voz que, noite alta, lhe segredava a promessa de felicidade, voltou a repetir-lhe: — «Vai a Belém e lá encontrarás o teu bem». Começavam a branquear os crutos dos mais altos cabeços da Serra. As grandes nevadas, o periodo de maior inclemência, iam começar. Ante uma vida de pouco mais de mediania e a promessa do bem, entre os rigores do inverno e a riqueza que lhe sorria, deveria desprezar esta? Sonhara três noites seguidas e guardou o segredo. Que mais era preciso, na voz do povo, para encontrar a felicidade? Partiu. Andou, andou, caminhou, para depois de muito andar, de muito caminhar, chegar finalmente a Belém. Viu o Tejo. Admirou o mar. Belos! Grandes! Mas... maior do que ambos, a sua Estrela, a sua terra! Passou um dia. Passou outro, e passaram três sem que encontrasse o tão prometido bem! Debalde procurava no sono reparador a voz que tão insistentemente lhe anunciara a felicidade. Veio a desilusão. Era mister regressar. Aconchegado nas samarras que lhe serviam de agasalho, postos os safões nas pernas e o sarrão a tiracolo, iniciou a marcha. Atravessou a primeira ponte. Um almocreve que se dirigia a Belém, estranhando a presença de um serrano por aqueles sítios, dirigiu-se-lhe: Estranha é aqui a tua presença, pastor! Que fazes por estas paragens?

Entre envergonhado e timido, hesitante, contou: — Durante três noites seguidas ouvi, em sonhos, uma voz que me dizia: — «Vai a Belém e lá encontrarás o teu bem». Cheguei há já três dias. Estou entrando no quarto sem que se me tenha deparado o tal bem. Desenganado, resolvo ir-me embora pró-pé do meu rebanho. O almocreve, que ouvira em silêncio o serrano, ficou pensativo. É que também ele sonhara com um tesouro e de há muito hesitava sobre se deveria ir procurá-lo ou se não deveria dar importância ao sonho. — Pois, amigo — disse — também eu sonhei que, no sítio de Belmonte, lá para as bandas da Estrela, debaixo da penha onde uma cabra amarela com a cria vai deitar-se todos os dias, se encontram uma cabra e um cabrito de ouro. Tenho hesitado entre ir ou não ir procurá-los, mas, depois da narração que me fazes, não pensarei mais em tal. Sonhos.., são sonhos!... O pastor ouviu e calou. Despediram-se. Desejaram-se saúde.

— Cabra e cabrito de ouro em Belmonte, na sua terra... ia ele pensando. No sítio onde uma cabra e o seu vão deitar-se!?... Recordava-se!... Efectivamente, à hora do rodeio não havia quem tirasse de certo barroco a sua marela. Estaria ali o seu bem?... Cheio de ansiedade, partiu. Seria agora mais comprido o caminho... — Belmonte!... A penha ou barroco onde a cabra ia deitar-se?! Cabra e cabrito de ouro?! Mas... tudo devia ser sonho!

A viagem fora rápida — o mais rápida possível — e, em Belmonte, a sua primeira preocupação foi revolver a penha. Levantada, lá estavam efectivamente, protegidos e guardados por ela, uma cabra e cabrito de ouro. Pensou e meditou: — Teria encontrado, finalmente, o seu bem? A simples posse da cabra e do cabrito dar-lhe-iam a felicidade!... E se fosse oferecer uma das peças ao Rei, reservando para si e para os seus o valor da outra? Se bem o pensou melhor o fez, e ei-lo de longada até à Corte. Uma vez no palácio real pediu insistentemente que o deixassem falar a sua Majestade, para quem trazia um presente. Relutância da guarda, recusa formal de quem superintendia em tal serviço. Não podia ser. O rei não recebia pastores. Nova insistência, novos rogos, novos pedidos, até que, depois de muito pedir, de muito insistir, foi levado â presença do Monarca, que se encontrava rodeado de fidalgos. Ante todos, não sabendo a qual dirigir-se, inquiriu: — Qual de vossemecês é o ti Rei? O Monarca, achando-lhe graça, deu-se a conhecer. — Pois então saiba que tenho ali fora uma cabra e um cabrito e que é de minha vontade dar-lhe uma das peças â escolha de vossemecê. — Pois então, visto que queres obsequiar-me, traz o cabrito que sempre é mais tenro. O pastor saiu e, voltando, desenrolou de entre samarras o cabrito de ouro e depô-lo nas mãos do Rei que, maravilhado e agradecido, lhe disse: — Homem, grande tesouro me apresentas; mas se eu soubera que a cabra e o cabrito eram de ouro, teria antes escolhido a cabra. O Pastor pediu licença para ir buscar a cabra, e igualmente lha oferecer. Assim foi. Saiu e voltou com a cabra de ouro que depôs nas mãos do Rei. — Conta-me, homem, a origem de tão grande riqueza. E o pastor contou. — Pois então — disse-lhe o Rei — vai, sobe ao Monte onde encontraste o tesouro e tem como teu, que to dou eu, tudo o que dele avistares. E, mandando ajaezar um cavalo, continuou:

— Não irás a pé. Montarás um cavalo que vou oferecer-te, e todas as terras que percorreres num dia, igualmente tas ofereço. E assim foi! Assim se formou a grande casa dos Cabrais e, assim, ainda hoje, na singela tradição do povo, o brasão da nobre família — duas cabras passantes — tem origem na cabra e cabrito de ouro, do pastor.

ID-06-A004
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